Introdução
A existência de um instrumento orientador e difusor das tradições e vivências Académicas tem o intuito de fomentar em todos os membros da Academia o gosto pelo conhecimento da região que durante alguns anos será o seu Lar – AVEIRO.
Esta Faina Académica ou Nem Tudo o Que Vem à Rede é Praxe surge, assim, como uma épica tentativa de enquadrar as tradições, os movimentos sociais e a dinâmica cultural da região com as manifestações académicas inerentes à existência de organismos mobilizadores, como Associações de Estudantes, Núcleos e outros, da vida académica. O reconhecimento dos mesmos, em termos de trabalho desenvolvido e em termos de formação complementar e extracurricular do estudante, passa por um dever de qualquer membro desta academia. Deste modo, a filosofia base adoptada na elaboração desta faina teve como objectivo principal identificar o estudante recém-chegado com o meio em que se virá a inserir e, simultaneamente, regulamentar a conduta da Nossa Vivência. As Fainas Piscatórias, o ciclo das Safras do Sal, actividades que se desenvolvem desde tempos imemoriais na região de Aveiro, são a fonte de inspiração e cenário das modestas linhas que a seguir se lavram na...
Portão ou Bomba
Breve Resenha Histórica
As raízes de Aveiro identificam-se com Céltica Talábriga. Daí chegaram a Talavarium e, depois, a Alvarário, como consta do primeiro documento escrito que se conhece, no caso a funcionar como certidão de nascimento desta terra. Este primeiro documento escrito sobre o Salgado, remonta a 26 de Janeiro de 959 d.C. sendo consequentemente anterior à formação da nacionalidade (1143), refere-se à doação das terras que possuímos no Alvarário (Aveiro) e das salinas que aí mesmo comprámos - “Terras in alavario et salinas que ibidem comparavimos”, feita pela condessa de Mumadona Dias ao mosteiro de S. Salvador que fundou em Guimarães. Se compradas por ela, teriam de existir anteriormente. Há quem pense que terão sido os Fenícios, povo dado ao comércio que terá vindo do Médio Oriente, por mar, no século X a.C. que, abandonando mais tarde as relações com o país de origem, terá passado a dedicar-se, entre outras actividades, ao fabrico do sal. Com a independência de Portugal, a “cidade” e as marinhas foram propriedade da nação até que em 1187 D. Sancho I doou Aveiro à sua irmã D. Hurraca Afonso. Em 1215, D. Hurraca Afonso doou a produção de sal ao mosteiro de S. João de Tarouca, produção que já na época deveria atingir alguns milhares de toneladas. O que em parte explica o acentuado desenvolvimento urbano por toda essa centúria, aliás como em geral se verifica pelo litoral do reino, o mesmo continuando, nessa região, pelo século XIV, ainda que a base social assentasse fundamentalmente em pescadores, marnotos e trabalhadores agrícolas.
Verificaram-se outras mudanças de proprietários deste tipo, mas o que é de salientar é que a produção de sal em Aveiro era já de facto notória durante a primeira dinastia, sempre considerada e reconhecida pelo próprio Rei uma autêntica “Feitoria do Sal” nas Cortes de Évora (1361). Pois além de abastecer todo o norte do país exportava já para países Europeus como a França, a Flandres ou a Inglaterra, tendo continuado uma actividade próspera, nomeadamente nos reinados de D. Afonso IV e D. Pedro I, sendo uma regular fonte de riqueza com a qual se pagaram dívidas e empreendimentos nacionais, como aconteceu com a tomada de Ceuta (1415) e com as Guerras da Restauração (1640-1668). No entanto, com os problemas da Barra e a quase estagnação das águas da laguna as dificuldades começaram a surgir e a actividade começou a decair. Com efeito, a topografia da Ria e a circulação de água a ela associada, que como se sabe variaram grandemente ao longo dos tempos até à abertura artificial da Barra, em 1808, foram factores decisivos na variação do número e situação das salinas. Estas, no século X d.C., Alquembim, Esgueira, Sôza, Vagos, Bôco e Ílhavo, no reinado de Afonso IV seriam cerca de quinhentos. No entanto, no século XVIII, só existiriam cerca de 170 marinhas e só após a abertura da Barra em 1808, permitiu a renovação regular das águas da Laguna, a actividade refloresceu, tendo-se mesmo constituído novas marinhas que nos anos 60 do nosso século, eram cerca de 270, chegando a produzir cerca de 95.600 toneladas/ano em 1966. No entanto, a partir de 1960 a actividade salícula entra em franca decadência, não só em número de salinas activas como também em volume de produção. Em 1991, havia cerca de 30 marinhas licenciadas para a produção de sal, no entanto, apesar de estarem activas, nem todas se dedicam à produção de sal, aguardando apenas licenciamento para a piscicultura. Daí que, apesar de renovar as licenças para a salicultura, apenas o fazem com o intuito de aproveitarem as infra-estruturas para a produção de peixe em regime extensivo.
Em suma, a situação actual do Salgado Aveirense não é animadora atendendo ao papel de relevo que já teve no passado como “Pólo de Desenvolvimento”. A designação de “Pólo de Desenvolvimento” justifica-se pela existência de factores que por razões de ordem vária contribuem para o crescimento económico, tais como: Inovação; Progresso tecnológico; investimento; aumento de produção; aumento de qualidade do produto; diminuição do preço; etc... Estes factores irão desencadear sinergias e todo um processo de desenvolvimento. As sinergias poderão ser transmitidas de uma forma horizontal – se tratar de uma difusão equilibrada dos defeitos de crescimento – ou de uma forma vertical – se tratar de uma difusão desequilibrada dos efeitos de crescimento, beneficiando os sectores que estão directamente ligados com o sector inovador quer estes se encontrem a montante ou a jusante.
Salgado de Aveiro foi esse elemento “Motor” do desenvolvimento económico dado o papel de relevo que teve na economia da região, na medida em que dinamizou um conjunto de actividades nesta área tais como: a construção de alfaias agrícolas; a construção de embarcações; dinamizou e alargou as redes de comercialização, assim como toda a actividade armazenista; gerou postos de trabalho; permitiu a pesca de longo curso, nomeadamente a do bacalhau, enfim... em várias épocas, o Salgado foi a pedra angular, “a chave” dos períodos áureos de Aveiro. Dele emergiram os impulsos que as micro-unidades – Unidades dependentes – iam transmitir e necessariamente ampliar contribuindo assim para o processo de desenvolvimento económico.
Figura 1 – Aveiro e a sua muralha quatrocentista (quadro do séc. XVIII)
BARACHA INICIAL
Nem Tudo O Que Vem À Rede É Praxe
E eis que nos chegam, de intempéries e outros vendavais (perturbando a bonança) uma mistura de caloiros e caloiras que se corporificam naquelas tansas criaturas – os lodos e lamas (género distinto mas basicamente híbrido). Estes entopem, conspurcam, dificultam, estragam e estrangulam o nosso “Portão”, as Salinas, os Canais, a cantina, a secretaria, as “Bombinhas”... e outros locais públicos e privados. Procede-se assim, de uma maneira afincada e implacável a uma “Limpeza”, aplicando-se partes desses detritos na reparação das “Cambeias” – brechas causadas pelos caloiros e caloiras na sua vinda atribulada – concluindo-se com a aplicação do “Capelo” (camada de lama e de lodo que arremata em toda a extensão).
A “Limpeza” culmina na “Rega do Mandamento” em que a fluência se torna mais uniforme e menos díspar. Segue-se assim a “Cura”, operação que tem como objectivo o produto final (subentenda-se, o Sal), que é colhido e conservado (“Feitura”) para futura utilização. A Safra divide-se em três fases com datas próprias e sucessivas. A primeira, que se limita aos trabalhos preparatórios, tem começo geralmente em meados de Abril e dão-lhe os marnotos o nome de “Limpeza”. A segunda, que abrange propriamente o fabrico do sal, intensiva nos meses de Maio a Agosto, e chamam-lhe “Cura”. A terceira, que consiste na recolha e conservação do sal, tem lugar em Setembro e designam-na por “Feitura”. A “Limpeza” tem por objectivo escoar as águas depositadas na “Comedoria” e no “Mandamento”; reparar os estragos causados pelas tempestades e remover as lamas depositadas durante o período de inactividade da salina. Efectuados estes trabalhos preparatórios procede-se à entrada de água pela primeira vez na salina, operação a que chamam “Regar o Mandamento”.
A “Cura” é um conjunto de serviços que tem por objectivo obter o endurecimento do “Parcel”, geralmente brando e vasoso, preparando-o para a “Feitura” do sal. É o trabalho mais importante, pois dele depende a abundância e a boa qualidade daquele produto, abrangendo um conjunto de serviços tais como: “Escoar Encanas”, que significa o esgotamento da água depositada nas salinas; “Amanhar o Mandamento”, “Arear Passadoiros”, “Machos”, “Eiras” e “Tabuleiros”, espalhando areia fina; “Bulir”, serviço que consta em agitar a moira brandamente a fim de remover a película de sal que a cobre e obter melhor evaporação; “Quebrar” e “Envaiar”, ou seja juntar o sal nos lados de cada compartimento cristalizador; “Rêr”, operação que se traduz em arrastar o sal para o tabuleiro; abrir o tabuleiro, moirar as cabeceiras e os meios de cima para dar passagem às moiras; e por fim tirar o sal para as eiras. Cada operação de sal rido demora três dias a cristalizar. O trabalho da “Feitura”, última fase da actividade das salinas, consiste em encher os montes pela colocação do sal nas eiras sobre a forma geométrica de um cone.
Concluídos os trabalhos de colheita e conservação, procede-se ao alagar da salina e inundação que a submerge inteiramente, com a qual se põem termo ao período anual da actividade da exploração salineira, mantendo-se assim até à Primavera seguinte.
Figura 2 – Esquema de uma Salina